segunda-feira, 9 de maio de 2011

AS OPERADORAS DE TELEFONIA E A ÍNDOLE PACÍFICA E ORDEIRA DO POVO BRASILEIRO

Me considero um sujeito dotado de uma dose extra de paciência, acima da média. Tenho trabalhado essa virtude ao longo dos anos, certo de que a irritação e o stress são venenos para o corpo e para a alma. Mas hoje a operadora TIM quase acabou com meu estoque. Passei três horas na loja, tentando cancelar um modem 3G de acesso à internet. O aparelho estava ruim, travando, com a velocidade de uma linha discada. E assim me dirigi à loja que fica no Shopping Beira Mar, em Florianópolis, com o firme propósito de cancelar o contrato e adquirir um outro modem na concorrência. Na chegada, a simpática atendente me olhou de cima a baixo e perguntou: O senhor quer cancelar? Pode fazer por telefone... E eu respondi: Não, prefiro fazer ao vivo, lembrando de uma trágica experiência com a Brasil Telecom, que até hoje me cobra por uma internet que nunca foi instalada na minha casa de praia, depois de eu ter ligado várias vezes cancelando o serviço, que nunca existiu. Mas isso é outro assunto. Ao dizer isso, a recepcionista deve ter pensado: Coitado, mais um que não sai daqui tão cedo... Resignado, fui sentar na sala de espera, ao lado de duas simpáticas senhoras. E aí descobrimos que as nossas senhas tinham as iniciais PV (pós-venda). E que no pós-venda é só encrenca. Reclamações, cancelamentos, cobranças indevidas, e por aí vai. E para atender no pós-venda, uma única e pobre criatura. Havia cinco pessoas na minha frente, sem contar o atendimento preferencial. Cada atendimento estava levando, em média, 45 minutos. E a espera começou. Espera. Espera. Espera... Nisso, pra matar o tempo, o grupo começou a conversar, animadamente, como velhos companheiros de sofrimento. Uma senhora japonesa do meu lado, muito engraçada, ajudava na descontração do ambiente, que estava cada vez mais tenso. Dali a pouco, já estávamos rindo da situação. Cada vez que a moça chamava o próximo cliente, isso era comemorado como se fosse um gol. De repente, avisto num canto da sala um telefone branco, com um letreiro em cima: "Suporte ao Atendimento". Pronto, pensei, é por aqui mesmo, como não pensei nisso antes! Levantei o fone e na mesma hora fui atendido (viva!). Quero cancelar. Pois não, senhor. Pediu a confirmação dos dados, tudo beleza. E eu pensando: maravilha, descobri uma maneira de fugir daqui antes do tempo. As senhoras do sofá me olhavam, torcendo por mim. Daí, o atendente falou: "Senhor, estarei transferindo a ligação para o setor de cancelamento....". Tranferiu. Atendeu uma moça, perguntou novamente os mesmos dados, por que eu queria cancelar, blá blá blá blá... Até aí, tudo bem. De repente, ela disse: Senhor, aguarde um instante, vou fazer o cancelamento no sistema. E começou a tocar uma musiquinha. Um bate-estaca, com um assovio no fundo. E o instante foi virando uma eternidade. Quinze minutos. Meia hora. Quarenta minutos. O meu ouvido doendo, mas eu ali firme, pensando, não vou desistir! Isso é um teste! Não teve jeito, desliguei e, vencido, voltei para o sofá. Mas a essa altura, já tinha demorado tanto que a minha senha foi chamada. Nova comemoração. Fui para a mesa da atendente e disse: Quero cancelar, pelo amor de Deus! Em cinco minutos, ela registrou o pedido. Senhor, para completar o cancelamento, a TIM vai lhe telefonar, em 24 horas. E eu: Jura? Tem certeza?.... Fui embora, extenuado, com aquela sensação de dejá-vù. Por que no Brasil as coisas são assim? Por que o consumidor é tratado como o cocô do cavalo do bandido? Isso só seria explicável em razão da decantada índole pacífica e ordeira do povo brasileiro. Triste sina, que nos levar a rir quando deveríamos agir, em busca de respeito e dos direitos assegurados em leis que raramente são cumpridas. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

SOU POBRE, MAS SOU LIMPINHO

foto: autoria desconhecida

A quantidade de informações que circulam na internet é tanta que é humanamente impossível - e pouco recomendável - abrir todos os arquivos, imagens, apresentações e otras cositas más que nos chegam na caixa de correio ou por meio dos chamados sites de relacionamento. Mas não posso  deixar de compartilhar uma imagem que me chegou por e-mail e que fala por si. Trata-se do verdadeiro lixão que se formou, após a festa de reveillon 2011, na beira do mar de Jurerê Internacional - a mais badalada praia de Floripa e onde costumam circular ferraris, top models, socialaites e gente rica ou aparentemente rica. Abro um parênteses para reproduzir uma pérola que recebi, também pela internet: "No Facebook e no Orkut todo mundo é bonito e feliz; no MSN, todo mundo é ocupado; e em Jurerê Internacional todo mundo é rico..." (autoria desconhecida). Voltando ao assunto, a imagem a que me refiro causou-me inquietação. Não há necessidade de descrevê-la, mas há curiosidades. Além das toneladas de garrafas, plásticos, copos, caixas, pratos, restos de comida e outros objetos não identificados, lá permanecem, em meio ao lixo, um casal "pegando praia". Há também um carrinho de supermercado (!) abandonado no meio da areia. Fico imaginando a situação: o sujeito convida a família, a namorada ou os amigos para festejar a virada de ano na beira da praia mais fashion de Floripa, o melhor local para festas na América do Sul segundo o New York Times. Prepara o seu farnel, com o melhor espumante e acepipes, e vai para lá, pular as sete ondas e beber até cair. E aí, na hora de ir embora, advinhe: deixa na areia, como oferenda (ou ofensa) a Iemanjá uma imensa variedade de porcarias, imaginando coisas do tipo: I am the king of the world! A praia que se foda! Eu tou pagando, por que vou limpar minha sujeira?... e por aí vai, retornando ao seu lar (ou hotel) com a consciência tranquila. Ou, como disse uma amiga, "comemorando mais um ano de noção zero de cidadania e respeito". Para coroar o acontecimento, na data de ontem (11.1.2011) um afamado colunista local, indignado com a veiculação dessa imagem na internet, atribuiu o fato "aos ciumentos que não suportam ver o Ibope espetacular de Floripa"... E disse mais: "a sujeira não foi feita pelos moradores e beach clubes, mas sim pelos milhares de turistas... e que o trabalho de recolher o lixo é dos garis, e não do cidadão que frequenta a praia". Ainda, segundo o colunista, a praia foi limpa pela Comcap imediatamente após a festa, restaurando-se a normalidade do lugar. Do subtexto dessa nota jornalística pode-se facilmente concluir: 1) pode sujar à vontade, que alguém virá limpar a sua caca; 2) onde já se viu um cara chique e bem vestido sair carregando o seu lixo no final da festa! É justamente esse tipo de raciocínio que está exterminando com os recursos naturais do Planeta. Enquanto a humanidade não incorporar conceitos básicos de educação, do tipo "sujou, limpou", a nossa querida Mãe Terra vai continuar pagando o preço da insanidade e da busca do lucro a qualquer preço, e a sujeira continuará sendo varrida para debaixo do tapete. Mesmo que o lixão da praia de Jurerê pós-reveillon não tenha sido obra dos moradores, como foi alegado, e sim dos turistas, todos nós estamos a bordo do mesmo barco, habitantes da mesma Casa, esta linda e generosa Nave Mãe que tudo aceita e perdoa, mas até certo ponto. A infalível lei de causa e efeito começa a dar sinais de que nem tudo vai bem e as catástrofes naturais se multiplicam nos quatro cantos. É a nossa Mãe advertindo: "daqui a pouco não haverá mais tapete para esconder tanta sujeira!".