quarta-feira, 24 de outubro de 2018

APRENDENDO A SURFAR

Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial de 2018, entrei na fase da aceitação, diante da possibilidade real de ter que rezar, em breve, pela alma da nossa jovem democracia, caso a ditadura branca, eleita pelo voto e representada pelo candidato da extrema direita, saia vitoriosa. Me debati e debati por meses na bolha algorítimica do Facebook, onde tenho cerca de 3.400 "amigos" e uns 20 ou 30 que visualizam e comentam minhas postagens, sempre os mesmos (alô, Mark Zuckerberg!!!). Às vezes tentando alertar sobre os perigos de uma escolha insensata, outras por mero desabafo. Doce ilusão! Que eu saiba, fiquei falando sozinho a maior parte do tempo e consegui convencer ninguém, chegando inclusive a fazer inimizades (eu e a torcida do Flamengo). Ao menos exerci o ofício da escrita, o que sempre me agradou. Pois bem. Ainda estão rolando os dados. Mas, independentemente do resultado, algo mudou em nossa configuração. A imagem do "brasileiro cordial", conceito descrito pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda em seu livro "Raízes do Brasil", foi a primeira a cair por terra. Se é verdade que a sombra precisa vir à tona para ser transformada, estamos no bom caminho. Confesso que não é nada fácil reconhecer a face obscura do decantado e mundialmente conhecido país do carnaval e do futebol. A boa nova é que a fase da aceitação me fez lembrar que a vida é onda e, como toda onda, poderosamente bela, inevitável, cíclica, e, por vezes, destrutiva. O mar é a melhor metáfora da impermanência. Não é à toa que alguns monges budistas adoram construir mandalas efêmeras na areia da praia. Não sabemos ainda o tamanho da onda que vem se formando no horizonte. Meu conselho: quem ainda não aprendeu a surfar, eis uma ótima oportunidade. O tempo urge e ruge.

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